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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Sextou. Setentei. Tive a sorte de encontrar dom Helder aos 20 anos. Minha geração precisa repensar os direitos humanos e a ecologia. O clima é prova cabal do rumo idiota do capitalismo selvagem...




Acordo 3 e meia nessa sexta de setembro. É minha primeira sexta com 70.

Estou recomeçando a viver a vida de uma postura definitivamente anti capitalista. Lembro do meu único encontro com dom Helder Câmara no velho aeroporto do Galeão.  Eu era estagiária  da assessoria de imprensa.

Tinha 20 anos. Cursava de noite jornalismo na UFF e dava aulas de manhã em escola pública primária em Realengo. Estagiava de tarde.

A ditadura proibira citar o pastor profeta. Ele conversou comigo por meia hora. Foi um divisor de águas.  Ele me perguntou se eu tinha religião.  Respondi que tinha sido criada na igreja católica mas estava em crise com tanta desigualdade e hipocrisia. Pensava em abandonar a crença embora gostasse dos rituais e adorasse orar.

Ele me deu lição.  Disse: "somos muito parecidos. Descobri isso com 14 anos no seminário.  Mas optei pelo caminho mais difícil. Decidi  ficar na Igreja e dedicar minha vida para lutar contra tantos equívocos.  Por isso, hoje, estou proibido de aparecer. Nesse momento, vou embarcar para Atlanta para receber o prêmio Mathin Luther King da Paz. Levo um discurso sobre o próximo século."

Claro que fiquei curiosa. Ele me deixou ler. Falava que no século 21 não importaria haver países capitalistas ou comunistas. O que contaria seriam países pobres e ricos, ditatoriais ou respeitosos democráticos.  Na verdade, a guerra seria de exploradores sobre explorados, sob os signos ideológicos de direita ou esquerda.  O importante seria a grande massa à margem do pequeno grupo privilegiado de poderosos que comandariam o planeta . Quanto à paz, ele foi esperançoso sob o ponto de vista religioso, mas cético sob o olhar realista. O mundo caminharia para o massacre de ricos sobre pobres.

Dom Helder lacrou meus 20 anos . Por ele, segui sendo católica apesar de me decepcionar muitas vezes com a ação dos homens na religião.  Mas creio na oração.

Como hoje sextou, mais uma vez, nessa primeira hora do dia que amanhece, torço pela Luz que possa clarear tanta escuridão na humanidade.

Cheguei aos 70 com certa fé no amanhã apesar de tudo. Creio que respeitaremos  o meio ambiente , sim, porque será nossa única saída  para a sobrevivência do Planeta.

O agro negócio vai se adaptar.  Os crescimentos sustentáveis  hão de crescer. Veremos . As florestas vão se recuperar. O capital diminuirá sua sede de poder e exploração.  A comida será posta na mesa dos pobres. Os sem teto serão acolhidos. Os refugiados, não perseguidos. Os políticos,  estes sofrerão crises existenciais profundas.  Os milionários capitalistas e armamentistas terão chance de repensarem seus inconscientes  de tio Patinhas.

Dom Helder, hoje,  Sextou comigo. Quando em 2005, visitei seu túmulo em Olinda,  no piso da Igreja, tive certeza de que ali jaziam os restos mortais de um santo. Tive a sorte de encontrá-lo naquela tarde de 1970.

Sua vida foi de exemplos e o chamavam de comunista, porque pregava o essencial dos Evanjelhos. Cristão de raiz. Aquele pastor de almas e evocador da Providência  Divina,  me encantou para sempre.

Cida Torneros


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