Por Helio Gurovitz
Diretor de redação da revista Época por 9 anos, tem um olhar... ver mais

O roque político de Bolsonaro

Para evitar o apoio de militares e de parlamentares fisiológicos ao impeachment, o presidente põe em risco as peças mais valiosas de seu tabuleiro: Paulo Guedes e Sérgio Moro

 

O roque, no xadrez, costuma ser um movimento defensivo. O rei deixa a posição de alvo central, que pode ser atacado pelos dois flancos, para tentar se proteger atrás de uma fileira de peões no canto do tabuleiro. Terá dali o pulmão de algumas casas, para onde poderá se deslocar caso entre em xeque, enquanto libera a torre e as demais peças para um jogo mais livre pelo miolo.
Ao iniciar nesta semana a fritura de seus dois principais ministros e cabos eleitorais, Bolsonaro fez um roque no tabuleiro político de Brasília. Escondeu-se atrás não de uma fileira de peões, mas dos militares, enquanto tenta costurar uma pinguela com as alas fisiológicas do Congresso para se proteger do xeque-mate: o impeachment.
Como no roque, a jogada de Bolsonaro se compõe de dois movimentos simultâneos. O primeiro deixou Guedes exposto. O segundo levou Moro a pedir demissão. Bolsonaro não gostaria de perder nenhum deles, mas aceitará o sacrifício de ambos, bispo e rainha, se obtiver em troca garantia de proteção. Trata-se não de demonstração de força, mas de sinal evidente da fraqueza de um governo desgastado pela Covid-19.
O recado para Guedes veio na primeira entrevista coletiva do novo ministro da Saúde, Nelson Teich, que subsituiu Luiz Henrique Mandetta. Em vez de Teich apresentar seus planos para o combate ao novo coronavírus, que o Brasil ainda aguarda com um misto de ansiedade e apreensão, o evento serviu para o general Braga Neto, ministro da Casa Civil, anunciar um novo programa de investimentos e recuperação da economia. Sem a presença nem o aval do ministro da Economia.
Pelo que se pode depreender da apresentação, desconjuntada e sem nenhum nexo econômico, trata-se de um resgate da ideia do Estado como promotor de investimentos, em áreas que o governo determina como estratégicas. É um manual que o Brasil já seguiu várias vezes na história – a última delas no governo Dilma Rousseff –, com resultados, por assim dizer, pouco encorajadores.
É importante ressalvar que o momento exige intervenção do Estado para salvar qualquer país de uma depressão. Faz todo sentido apresentar um plano econômico para isso. Não significa que o plano apresentado faça algum sentido. Econômico, não faz nenhum. Seu único sentido é político: abrir, num momento de crise, mais espaço no governo para os militares. Tanto que um general sem retrospecto no combate a epidemias assumiu o posto mais crítico para enfrentar a Covid-19: secretário-executivo do Ministério da Saúde.
Para Bolsonaro, esconder-se atrás de uma fileira de militares tem uma lógica política óbvia: evitar que eles apoiem qualquer tentativa de impeachment. A crise da Covid-19 provocou uma ruptura praticamente irreversível entre o presidente e as lideranças do Legislativo e do Judiciário. Ao ir à manifestação que pedia o golpe militar no último fim de semana, Bolsonaro mais uma vez confirmou que prefere cultivar o apoio dos mais radicais entre seus eleitores.
No quadro atual, ele precisa dos militares menos para dar um golpe – embora não seja possível descartar tal ambição – do que para evitar que se aliem aos setores que clamam pelo impeachment. Se o preço a pagar por isso for a adesão a um certo desenvolvimentismo de tom verde-oliva e a fritura de Guedes, paciência. A crise oferece pretextos de sobra para justificar o sacrifício do bispo.
Apenas o apoio da caserna, contudo, não basta. Apesar de toda a confusão que reina em Brasília – talvez até por causa dela –, continua irrisória a chance de que os militares embarquem na fantasia de golpe contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) acalentada pelos acólitos de Bolsonaro. Para sobreviver no poder, portanto, ele também precisa restaurar alguma ponte com o Legislativo.
Daí o segundo movimento de seu roque: a demissão do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo. No início do governo, Moro fez questão de pôr no cargo alguém que mantivesse os princípios da Operação Lava Jato. A indicação de Valeixo provocou uma das primeiras crises com Bolsonaro, cujo filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, era alvo da investigação no Caso Queiroz.
Moro saiu vitorioso no primeiro embate. Daí em diante, viveu vários outros choques com o presidente, muito em virtude da popularidade ainda resultante da Lava Jato.