sábado, 16 de maio de 2020

Quarentena engorda! Embranquece os cabelos. Testa nossa resistência. Faz eu sentir a chegada dos 71 com vontade de mudar o mundo!





Num surto ansioso, neste sábado, busco uma roupa antiga e me produzo. Os cabelos estão brancos. A roupa apertada.  Peço à secretária par me fotografar. Ultimamente tenho comido muito doce.  Os bichos são meus companheiros de isolamento.  5 gatos e o Sucata que herdei de mamãe.  Vou fazer 71 em setembro.

Ainda quero mudar o mundo. Tanta desigualdade. Tanta injustiça.  Miséria e violência.  Sei que essa pandemia é desoladora. Tento sorrir.  Mas meu coração me trai. Sofro como todo ser que testemunha esses dias obscuros.

Meu grande consolo é a chegada da minha primeira neta em agosto. Ela vem como um raio de luz no meu caminho.  Sei que será corajosa e desbravadora.

Como foram minha mãe e minha avó. Mulheres fortes. Orgulho-me delas.

A fome é endêmica no mundo pobre de espírito inundado de egoísmo.  Habito a velha casa dos meus pais. Sem luxos. Com história de amor e família.  Aqui repenso o Brasil.  Os valores de honestidade e patriotismo que me passaram.

Consigo sobreviver da aposentadoria depois de quase 50 anos de trabalho.
 Foram muitas lutas e enfrentamentos,  além de conquistas profissionais e algumas decepções. 

Mas faria tudo de novo. Idealista, acreditei na comunicação para ajudar as pessoas.  Adorei fazer campanhas de vacinação.  Amei dar aula em faculdade. Sigo crendo que há chance de vivermos um mundo mais empático.  Não é possível que tão poucos concentrem riquezas enquanto milhões amargam necessidades básicas.  A roupa que vesti hoje tem 20 anos. Tive que alargar. Vou vestir no dia dos 71. É uma pequena vaidade de uma mulher que sempre estudou em escolas e faculdades públicas e que nunca perseguiu acumular nenhuma riqueza além do amor e da cultura.  Gastei muito em livros .

Hoje reflito sobre tudo que ainda LEIO bastante.  Quarentena também me faz ler mais. Os pensamentos até se embaralham. Custo a tirar conclusões.  Todos defendem teorias ou ideologias que muitas vezes se antagonizam.

Quem é essa criatura que agora dentro de mim questiona a vida?

Talvez seja o espelho de uma pandemia cruel mas de grande chance reflexiva.

Sou agora uma senhora que refaz o caminho. Rumo ao mundo novo pós crise 2020.

Eu mesma me acolho e recolho.

Ainda rezo. Ainda faço crochê e tricô.  Ainda escrevo crônicas e poemas.

Estou aqui imaginando coisas boas para as pessoas.  Desejo saúde e paz. Aliás,  cultivo a paz interior e driblo tanta angústia.

Sei  que haverá luz no fim deste túnel tão escuro. Verei brilhar uma Lua especial . Agradeço. 

Prometo cuidar melhor da minha caridade. Sei que posso fazer mais.  Farei.

Quarentena é prova de resistência.  Estamos juntos. Solidariedade é a palavra-chave.  Vai passar.

Cida Torneros 

Uma conversa com Pedro Cardoso. ( professor Paulo Girardeli )


Padam


Meninas são flores

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Meninas são flores


Meninas  são  flores
Vejam bem senhores
São a natureza em festa
Merecem viver a alegria 
Não  dependem  de favores
São  dignas de respeito e fantasia
De melhores dias e muitas cores
Meninas são patrimônio mundial
Percebem o futuro pela misteriosa via
Da sua espiritualidade  fenomenal
Elas trazem o futuro nas mãos 
Geram um universo em cada olhar
Enfeitam a humanidade com sua capacidade de amar! 
Cida Torneros 

O cântico da terra


sexta-feira, 15 de maio de 2020

Eu quero apenas carinho


Las madres y abuelas de lá Plaza de mayo


Filha de Cora Coralina


Tsunami. Poema que fiz em 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008





tsunami ( a sós)

antes da grande onda

por favor, me ame a mim

ame a humanidade toda

ame a mulher songa-monga

a criança down, o velho coxo

o pedinte sujo e o pivete esperto

ame o inimigo tolo, o macaco rhesus,

a flor entreaberta, a porta fechada

dos corações endurecidos,

antes da grande ondapor favor, me beije assim

como se fosse próximo o fim

do nosso amor e dos tempos

e se compadeça do ser humano

do pobre bicho pensante e ignorante

...antes que a água nos invada

me inunde de paixão acesa me resplandeça

sim, me aqueçame enterneça

e jamais se esqueça

que haverá um dia

em que a terra-mãe

acolherá nossos restos de paixão

...antes dos tsunamis

invoque os bhamas, os deuses, os avatares,

peça perdão pelos desvalidos seu desvios

seus erros de avaliação, pelas bombas atômicas

pelas criaturas atônitas

convoque a onu, dos homens nus, dos sem destino,

e entoe pra mim, um lindo hino

de paz na terra, em meio ao luto, distribua afeto

pelos desconhecidos, pelos nossos mares revoltos

...antes da grande onda,

por favor, me diga onde está seu abraço,

onde posso apaziguar meu corpo no seu cansaço

de ser quem sou, um nada a mais, uma gioconda

sem sorriso, talvez uma alma sem corpo

...mesmo assim, querido , um último pedido lhe faço:

venha para mim, antes da onda gigante,

e me faça morrer no seu calor como uma flor...

me deixe sucumbir na sua dor como um final feliz...

me veja conformar o povo do mundo com a doçura da meretriz

e não me abandone ao tsunami feroz

sem antes me sussurrar que me quer um bem abstrato

um bem sem medidas, um bem além de nós

um bem super-humano, um bem capaz de engolir o fato

de ser quem sou, pequena e frágil, se estou assim:

como meus irmãos da Ásia e do mundo inteiro : a sós...

Aparecida Torneros

3 comentários:

  1. Amei este poema "Tsunami"! Que sensibilidade!
    PArabéns!!
    Amei mais ainda o da Faixa de Gaza: perfeito!!!
    Responder
  2. aplausos muito lindo esse poema, parabéns


quinta-feira, 14 de maio de 2020

O canto de dona Sinhá


Quarentena, isolamento e crochê da Vó Cidinha





As coisas coincidiram:  a quarentena, o isolamento e o treino para ser avó.

Sobra tempo pra fazer crochê do enxoval da minha neta.  Decidi há dois meses liberar o cabelo branco.   Economia para ajudar nas despesas que farei viajando para BRASÍLIA.

Mas o tempo uso também pra  reler e estudar. Me informo sobre o triste momento da pandemia, releio Cora Coralina,  ontem busquei um pouco de João Cabral de Melo Neto,  assisti documentário sobre Michelle Obama no domingo na Netflix,  vi a maravilhosa  entrevista do Marcelo Gleiser na TV Cultura no programa Programa provocações.

Rezo. Todo dia.

Aproveito o Sol no Jardim. Engordei nestes dois meses.  Assalto a geladeira. Ligo para a  padaria e peço mil folhas. Compenso  angústias e preocupações com palatável doçura.

Assisto a novela trágica da atual briga de poderes no meu país. Falo com amigos fora do Brasil. A angústia é global.

Perplexa, vejo um mundo em transformação célere e cruel.

Volto a admirar o estadista Imperador Dom Pedro II. Vejo os governantes confusos e perdidos. Lamento as filas da miséria por auxílio emergencial.

Sinto que estou ansiosa mas não me escapa a esperança na recuperação do planeta.

Releio poemas antigos. Quem sabe resolvo mesmo publicá-los. Depois  dos 70 como fez Cora.  Ontem ouvi Gardel. Tantas atividades. À  noite,  fora os noticiários,  acompanho a novela portuguesa  "Ouro verde" exibida na Band .

Quanta atividade, reconheço.  Mas ando muito sedentária. Tenho consciência disso.  Controlo os altos e baixos das crises de coluna.

Fico imaginando um jeito de fazer mais caridade. Preciso ajudar mais pessoas.  Sou parte de um todo que sofre.

Mesmo assim consigo rir no telefone com minha prima Carmen Lúcia,  ativista social na baixada,  que se considerava a única atéia da família.  Mas não é não.  Meu filho é ateu praticante!

Nós duas lembramos nossa infância.  Rimos  muito. Eram os anos 60.

Faço um balanço.  Essa quarentena está repleta de redescobertas . Apesar de tudo.

Até estou gostando dos meus cabelos brancos que me fazem assumir a terceira ou quarta idade com idéias  renovadas e ideais requalificados .

O ideal socialista permanece.  Sei que o capitalismo está perdido. Encontraremos novos meios de buscar menor desigualdade social.


  1. Quanto sonho ainda tenho. Vou cultivar isso em mim até o fim. Fiz essas selfies ontem. Quara-feira 13 de Maio. Dia de nossa Sra de Fátima é da abolição da escravatura.  Um viva à liberdade. Fora ao racismo estrutural. Combate científico à pandemia.  Foco.  Minha gente.  Foco!


Cida Torneros 

domingo, 10 de maio de 2020

Rita Lee e a quarentena



RITA LEE E A QUARENTENA

"Eu, que pago para não sair de casa, que só saio da toca em caso de emergência, tenho algumas dicas para você se distrair enquanto estiver em isolamento forçado.

Há 8 anos vivo enfurnada e há sempre coisas interessantes para fazer.

Nada melhor do que ter a companhia de bichos, que oferecem serenidade e alegria: cuidar e brincar com animais faz o tempo passar de maneira mais divertida.

Arranjar uma mudinha de planta e acompanhar o crescimento dela é emocionante.

Aproveite e plante em vasinhos: cebolinha, salsinha, tomates-cereja... até alface.

Descole uma orquídea, ainda com brotinhos, para acompanhar o desabrochar, lindamente, dia a dia.

Espalho telas e tintas sobre uma mesa e me arrisco a pintar alguma coisa, mexer com cores dá uma alegria na cabeça enquanto escuto músicas que me fazem feliz.

Tenho feito tricô, fabrico mantas para os bichos usarem quando o inverno chegar.

Escrevi uma letra vudu sobre o coronavírus e fiz uma música punk para combinar com a noia que acontece: chama-se ‘Vírus do horror’.

Faço minhas unhas e pinto de várias cores.

Pratico feldenkrais por skype para meu corpo não enferrujar. Assisto séries diversas e filmes antigos na TV.

Outro dia matei a saudade de um clássico dos anos 1950, "O dia em que a Terra parou", bem no clima de hoje.

E, é claro, sempre rola um filme de James Dean no salão.

Escolhi passar apenas 3 horas por dia acompanhando as notícias do coronavírus, mais do que isso fico deprê.

Depois, acendo velas e incensos na frente do meu altarzinho com todo tipo de divindades.

Peço, em especial, para Nossa Senhora Aparecida proteger o Brasil com seu manto milagroso.

Ando fuçando minha biblioteca, escolhendo livros que já li e esqueci.

Arrumo gavetas, jogo fora um monte de traquitanas inúteis que acumulei ao longo dos anos.

Fico namorando e limpando minha coleção de cristais phantom e meus pesos de papel.

Lavo as mãos duzentas vezes por dia cantando "Parabéns a você" e estou viciada em passar álcool gel, hábitos modernos.

Tenho a sorte de morar numa casinha no meio do mato com meu namorado e passeamos pelo jardim conversando com as plantas.

Acabei de escrever um livro e não consigo defini-lo: se é um diário, citações esquisitas, autoajuda a mim mesma ou nonsenses da minha cabeça.

Pego o violão e noto que esqueci como tocar a maioria das minhas músicas.

O que me deixa mais triste é não poder receber visitas dos meus filhos e netos, mas nada que um face time não resolva provisoriamente.

Minha impressão é a de que nesse confinamento forçado que a humanidade está sendo obrigada a passar há um propósito Divino.

Um teste para que aqueles que sobreviverem a essa guerra invisível se conscientizem de que o planeta Terra está realmente sendo destruído pelos donos do poder de cada país.

E que se não modificarem radicalmente seus comportamentos em todas as áreas, aí, sim, será a Terceira Guerra derradeira. Saúde física, mental, psicológica e espiritual para todos!”
#fiquememcasa
#vamosvencer

Coração materno, de Vicente Celestino a Caetano Veloso, no Brasil de hoje elas são os chefes da maioria das famílias


Quem tem mais de 60 deve lembrar desta canção quase trágica mas muito simbólica,  Coração materno,  na voz de Vicente Celestino. 

Essa versão com Caetano Veloso me  trouxe a releitura da doação de um coração de mãe.  Aquele capaz de ser arrancado do peito e permanecer pulsando além da morte, por amor ao ser a quem um dia deu a luz. 

Lembro que, quando menina, a história me assustava. Pensava no músculo ensanguentado gritando e perdoando. Mais tarde ao amadurecer compreendi a metáfora do quanto é capaz de ser desprendido um sentimento verdadeiro de uma mãe. 

Perdão sempre.  Apesar do psicologia atestar que muitas vezes uma mãe é responsável por traumas que inconscientemente causam por herança cultural ou limitações religiosas,  amarras preconceituosas,  no fundo,  mãe imagina e quer fazer o melhor que pode para proteger sua cria.

José Ângelo Gaiarsa era um psiquiatra que chamava a atenção para os riscos psíquicos até irreparáveis que muitas mães deixam nas mentes por excesso de zelo ou amor confuso.

Entretanto,  essas criaturas são bem intencionadas além de lutadoras ou sofredores ou esperançosas ou ainda vigilantes do bem que projetam.

Um coração materno é repleto de amor e perdão no mundo inteiro. 

Cida Torneros 

Torre das donzelas